sexta-feira, 30 de abril de 2010

Amor Festa Devoção

Hoje, mais uma vez o meu ser se dispersou, arrancado desde a raiz até a última gota do meu suor.

A luz ascende o véu de prata que paira, e a voz em chamas se apresenta, entoando mil trovões, como convém a uma deusa. Desfiando um rosário bento ela diz de onde vem, onde foi "feita" e para onde vai, rompendo as matas a levar e trazer a beleza deste Brasil caboclo. Xetuá!!
A languidez do seu corpo-menino se lança feito pluma num assento que, a priori, destoa, mas que a medida em que ela se nos oferta - " tua, tua" - fundem-se: ser e objeto. E mais uma vez os meus olhos sobressaltam, corpo e cadeira traçam um balé suave, como se fossem um só. Explode coração. O amor é encantado, soletrado flor-a-flor, despetalado dor-a-dor, queixa-a-queixa..."você me arrasou..."
Entre uma lágrima e um aceno, entrego-me totalmente e já nem sei se "perdi-me do nome", ela me faz suplicar.

Uma pausa.

Um branco incandescente lentamente vagueia, e nos pés da menina vejo a senhora, plácida, serena, mãe. Como quem faz uma prece, ela a senhora, entoa o canto de amor, identificado, dos pais. O palco se rende em oração, mas ela brada aos quatro ventos "meu canto é teu, minha Senhora"... Faço uma reza bem baixinha, no cantinho da minha alma mais uma lágrima.
O palco agora é serra, sertão, mar; e a senhora vai tecendo, entre músicas e textos, o retrato do seu intimo país, que nesse pequeno espaço de tempo passa a ser nosso também. Ê senhora! Os pés enuviados valseiam de um lado para o outro, e a essa altura ela já é todo o palco.

Não há espaço, não há tempo.

Apenas a voz.

Os atabaques ressoam, e num "rum" agitado o raio corta o palco; a reverência, a benção e o adeus. Os meus olhos, marejados, seguem o véu prateado, e se perdem na esquina de luz. Ela se foi.

Hoje, mais uma vez o meu ser se dispersou, arrancado desde a raiz até a última gota do meu suor... "Amor Festa Devoção - é o que sinto por ti, minha senhora"

Dani Danjos - 30/04/2010

quinta-feira, 1 de abril de 2010

... sigo vagando nas veias
do teu corpo
à procura de um átrio,

espaço em branco


para escrever a minha dor...