domingo, 28 de dezembro de 2008

Um cão!


Os sentimentos vivem em nós o tempo exato de dois sorrisos e algumas mortes; são voluntariosos, implacáveis, vorazes e infinitamente fiéis. Há tempos tenho criado um cão, raça ainda não definida, por conta da inconsistência de seus atos, um dia brincalhão a lamber-me as mãos e abanar a cauda, no outro uma fera a rosnar para mim mostrando-me seus dentes grandes e afiados. Amo-o, mas ele tem crescido muito, tomado proporções que a minha pequena casa não mais suporta, tem comido muito também e só as minhas entranhas não mais sustentam a sua fome. Resolvi então não cuidar mais dele, doá-lo, mandá-lo ir, perdê-lo, em última instância matá-lo. Não pensei ser tão difícil me livrar de um bichinho tão fofo, mas que me dá tanto trabalho. Comecei tentando doá-lo, nada feito, ninguém o queria, - grande demais!! - diziam uns; - come demais! – diziam outros. Levei-o a um lugar desconhecido e deixei-o lá, passaram-se alguns dias... Já alegre imaginando tê-lo perdido de vez joguei sua cama fora; ó sonho o meu, um dia ouvi um latido à porta, para mim já bastante familiar, ele havia achado o caminho de volta. Diante das tentativas frustradas de tirá-lo de minha vida, sentei-me com ele e disse-lhe do meu desejo de não mais vê-lo, fui o mais sincera possível, pedi-lhe que fosse embora e não mais voltasse, ele com seu jeitinho doce, a sorrir-me convenceu-me a deixá-lo mais uns dias, na condição de procurar um outro lugar para habitar. Os dias foram passando e ele continuava ali, expulsei-o, mas todos os dias quando abria a porta de casa dava de cara com ele, olhinhos pidões, rabo a balançar, fiel, implorando-me um lar, alguém para amar... Enfim, cansei de lutar. Deixei que ele entrasse, mas pedi que ficasse num cantinho onde não pudesse vê-lo, mesmo sabendo de sua presença. Sei que ele fica a rondar-me, durante a noite vela o meu sono, sabe todos os meus passos, reina absoluto quando saio de mim. Hoje, decidi não mais alimentá-lo, quem sabe assim ele decida de uma vez por todas partir...

Imemórias....


A paixão tem memória, e eu que ainda nem senti teu cheiro, já guardo em minha face teu sabor. Meus olhos percorrem tua língua, incessante a gastar-te, a languidez do teu corpo, jogado nas nuvens do castelo, borbulha o meu sangue, num misto de fervor e medo, medo de não suportar o teu prazer, medo de render-me ao teu canto, encanto, desencanto...
Clamei e vieste banhada de sol, o azul do mar a escorrer pelas tuas pernas; num ímpeto de loucura acalentei-te em meus braços, entre a tentação de possuir-te e real necessidade de consolar-te. Era verão e o sol queimava, me fazendo esvair em líquidos insosos... Meu coração pátio dos teus devaneios, apartado do meu corpo, já não sabe conduzir-se nos átrios do teu.
Perdida que estou nas tuas dores, revivo os meus desamores, na incansável luta de lançar-te ao fogo, logradouro das minhas ilusões, neste instante de lucidez a minha memória quer apenas esquecer-te...

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A natureza rompante de mim, impede que eu aceite a tua dor. Como calar as lágrimas em minha garganta?? Como segurar o soco no ar?? Vejo-te e menos compreendo, menos compreendo os teus olhos, as tuas súplicas vãs... menos compreendo a tua subserviência, essa sim me amedronta. Olho para o escuro espelho e pouco de ti encontro, sombras, sobras, um velho sorriso amarelo, cataratas nos olhos e nada mais...
Levanta-te e anda!! disse o Senhor. Assim digo-te também, levanta do fosso onde te lançaram, abre a porta da vida e segue-a, ressucita a força e com ela a beleza que lhe é tão peculiar, e vai, mostrar ao rei quem tu és.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Umbigo do mundo

" Dor é o lugar mais fundo, é o umbigo do mundo, é o fundo do mar..." Mesquinhos é isso que somos. Incapazes de nos aperceber da dor alheia, pouco importa a lágrima, o sorriso amargo do outro, a nossa dor é sempre maior. Olhamos o outro como um ser inanimado, capaz de ser queimado a ferro em brasa e não sentir, pois, enquanto tecemos bilros da nossa dor, pensamos ser os únicos a sentir tal coisa. E o outro, o nosso interlocutor?? Terá ele sentimentos?? Dores?? Medos?? Ou será ele apenas simulacro de nossas dores???

Passei a repensar as poucas amizades que possuo, me senti invisível diante de algumas delas; o egoísmo latente impede-as de olhar para o lado, são capazes de me ver chorar e simplesmente continuar a contar-me os seus infortúnios, como se o mundo parasse de girar por causa de seus desamores.

Cansei.

Não mais quero abaixar-me, recuso-me a ser ignorada por quem se diz meu amigo. Aprenderei a olhar para o meu umbigo, e a somente regar as flores do jardim alheio, já que as do meu jardim são tão minhas que podem sobreviver sem mim. Cansei das desculpas, pois amigo para mim é amigo, não existe o meu, ou o seu problema, existe o nosso.

Irritadissíma!!!!!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Avatares

Andei a pensar em brinquedos, na forma como instintivamente usufruimos dos avatares na vida. Assim como as pessoas, também os brinquedos perecem, e a nós cabe escolher o lugar onde os guardaremos. Temos o mal costume de largar o brinquedo velho, ao menor sinal da chegada de um novo, joga-mo-os lá, em qualquer canto da casa, em qualquer lugar do porão. Esquece-mo-nos dos perigos que possivelmente rondam o pobre velho brinquedo, tratamos logo de arranjar um belo e vistoso lugar para o novo, não que ele não mereça um lugar ao sol, mas o sol brilha para todos. O que percebo ocorrer é sempre uma substituição, tanto de brinquedos, quanto de pessoas.O quê realmente nos difere, nós seres humanos racionais, dos brinquedos??? O simples fato destes serem inanimados??? Mas, e nós??? Somos também desprovidos de sentimentos??? Senti-me envergonhada, ao perceber a quantidade de brinquedos, nem tão velhos assim, que simplesmente abandonei ou substitui; ao me dar conta de que quando substituí, o brinquedo novo não tinha a mesma qualidade do velho, e com poucos dias de uso se quebrou... sofri, quando tive que descer ao porão e trazer de volta o velhinho... pois ao reduzi-lo a classe dos imprestáveis, lancei-o a tipo de sorte, e nem sempre quando voltei a procurá-lo o encontrei. Vários são os perigos que um porão esconde, ratos, traças, pó... só agora me dei conta de quantos brinquedos perdi... e do quanto o porão é frio e solitário.... perdi-me...