
Os sentimentos vivem em nós o tempo exato de dois sorrisos e algumas mortes; são voluntariosos, implacáveis, vorazes e infinitamente fiéis. Há tempos tenho criado um cão, raça ainda não definida, por conta da inconsistência de seus atos, um dia brincalhão a lamber-me as mãos e abanar a cauda, no outro uma fera a rosnar para mim mostrando-me seus dentes grandes e afiados. Amo-o, mas ele tem crescido muito, tomado proporções que a minha pequena casa não mais suporta, tem comido muito também e só as minhas entranhas não mais sustentam a sua fome. Resolvi então não cuidar mais dele, doá-lo, mandá-lo ir, perdê-lo, em última instância matá-lo. Não pensei ser tão difícil me livrar de um bichinho tão fofo, mas que me dá tanto trabalho. Comecei tentando doá-lo, nada feito, ninguém o queria, - grande demais!! - diziam uns; - come demais! – diziam outros. Levei-o a um lugar desconhecido e deixei-o lá, passaram-se alguns dias... Já alegre imaginando tê-lo perdido de vez joguei sua cama fora; ó sonho o meu, um dia ouvi um latido à porta, para mim já bastante familiar, ele havia achado o caminho de volta. Diante das tentativas frustradas de tirá-lo de minha vida, sentei-me com ele e disse-lhe do meu desejo de não mais vê-lo, fui o mais sincera possível, pedi-lhe que fosse embora e não mais voltasse, ele com seu jeitinho doce, a sorrir-me convenceu-me a deixá-lo mais uns dias, na condição de procurar um outro lugar para habitar. Os dias foram passando e ele continuava ali, expulsei-o, mas todos os dias quando abria a porta de casa dava de cara com ele, olhinhos pidões, rabo a balançar, fiel, implorando-me um lar, alguém para amar... Enfim, cansei de lutar. Deixei que ele entrasse, mas pedi que ficasse num cantinho onde não pudesse vê-lo, mesmo sabendo de sua presença. Sei que ele fica a rondar-me, durante a noite vela o meu sono, sabe todos os meus passos, reina absoluto quando saio de mim. Hoje, decidi não mais alimentá-lo, quem sabe assim ele decida de uma vez por todas partir...
