sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Não quero que você me ame,
apenas carregue-me no ventre,
me dê calor e sais...

Não quero que você me ame,
apenas proteja meus olhos em noites de tempestade
e segure minha mão na passagem das águas...

Não quero que você me ame,
apenas sente-se ao meu lado
em pleno sol do meio-dia e me queira...

Maresia

Minhas mãos te buscam em imperfeitos movimentos de mar,
sal e suor revestem as faces nos incansáveis lampejos da lua,
mar de prata...
E o espelho de ondas testemunha, ouve, chora o gozo intenso de nós.
Esse mar que pulsa nas minhas veias, espinha dorsal do nosso amor,
revela e enleva o nosso sonho...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Tecelão de almas

Qual poeta qual nada, apenas tecelã dos remendos de uma alma só, rendeira do fio da palavra que me sustenta. Em cada verso cosido um alento, uma flor. Vou bordando a vida com os fios da dor que me consome. Entre pontos e cruzes o amor, e nas mãos encaladas a palavra, gesto mudo, esperança.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Anistia

Perdoe-me por ter enxergado através dos teus olhos d'água,
perdoe-me pelos sorrisos e sonhos,
pelos projetos, já fadados ao fim antes de nascer,
pelos suspiros e lágrimas que regaram os dias,
pelos abraços, pelos beijos, pelas carícias.

Perdoe-me por apriosionar meus braços no calor dos teus abraços,
por condicionar meu sono aos teus afagos,
por desejar-te do amanhecer ao anoitecer.

Perdoe-me por na hora da despedida ter, sorrateiramente, seguido os teus passos,
pois agora preciso voltar e não sei mais o caminho...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sertão!

O sol escaldante tatua meus olhos com miragens de mar... mar de fomes e angústias. No céu nenhum sinal de um sonho que seja, apenas abutres e fel... O sertão é em mim. A seca dor que me atormenta rasga o pulso com o fio cego da navalha e me ultrapassa. No sangue que jorra, enfim, a semente a saltar da terra sem fim....

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Dama, valete e rei

"O amor não vale trinca..."

A lei da física é clara, dois corpos não ocupam o mesmo espaço, acho que perdi estas aulas, teimo em querer habitar lugares já preenchidos. Permito-me crer em palavras suaves e lágrimas vãs.

Ela veio, e eu armei cama e mesa, desocupei o guarda-roupa, troquei a fronha do outro travesseiro... ela viria, não chegou nem a sair de si, e eu já havia debandado de mim para abrigá-la.

Agora, como das outras vezes retorno ao meu lar cansada e só... e deixo que ela que nem sequer saiu de si, tente encontrar-se...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Nós

Agora que o soco foi dado sobe-me um bolo macilento e cinza à boca, o resto de nós. Em mim apenas um nó nas vistas, que a esta altura penso defeituosa, não enxergo mais as flores de outrora, os sorrisos se calaram e a boca tapada pelo bolo macilento reverbera pragas e in-verdades. Dentro das meias-verdades que lançamos, tento nas minhas reflexões vãs, destrinchar os engodos com que vestistes a inocente leviana.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Seulement

Na frieza das noites de inverno, minha alma chove, escorrem pelas vielas fotos e cartas perdidos nos sonhos, nascidos na primavera em teus braços. Na boca o gosto do beijo, ainda fresco, à porta de um casebre candidato a lar. Incomodam-me, desde então, as noites gélidas ausentes de ti, não durmo é inútil, a lembrança dos teus olhos me persegue; vulcões acesos a censurar-me, inibir-me, inebriar-me. Sinto repulsa ao teu sorriso, largo, cristalino, vivo, pueril; e me expurgo quando feito criança corro a pular no espelho d’água da tua face. Um dia virá em que esse meu esperançoso coração cansado da guerra baterá retirada de mim, e poderei enfim dormir.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Desabafo....

As almas estão interligadas e a minha sentiu a tua partida, numa fria madrugada triste e sabe-se-lá-Deus pra onde, levando consigo as minhas mais belas canções. Eu já esperava atenta, nunca dei muita sorte com coisas duradouras, em minha vida essa palavra faz pouco ou quase nenhum sentido, por mais longa que pareça a coisa se desfaz...

Não vi o sol nascer e temo não vê-lo se pôr, não há mais sentido...

Você se foi e agora as películas não têm mais beleza, o roteirista do filme se zangou comigo e me cortou da cena de sua vida, ando a vagar... a ancôra que me segurava ao céu afundou...

não consigo...
choro apenas...

domingo, 8 de março de 2009

Cantiguinha

Meus olhos eram mesmo água
te juro
mexendo um brilho vidrado,
verde-claro, verde-escuro.

Fiz barquinhos de brinquedos,
te juro
fui botando todos eles
naquele rio tão puro.

Veio vindo a ventania
te juro
as águas mudam seu brilho,
quando o tempo anda inseguro.

Quando as águas escurecem,
te juso
todos os barcos se perdem,
entre o passado eu futuro.

São dois rios os meus olhos,
te juro
noite e dia, correm,
mas não acho o que procuro.

Cecília Meireles


... a leitura perfeita dos teus olhos.....