quarta-feira, 13 de julho de 2016

Estava tão cansada que nem o ardor das vontades me permitiu enfiar o dedo. Anestesiei. A vontade era daquelas que de tão real torna-se imaginação, e daí pula para o delírio. Alucinação. Acordei suada, seu mel escorria pelos meus lábios, minhas mãos ainda seguravam seus seios pra eu não cair. Cair na real de que era mais um daqueles sonhos devassos que tenho desde que lhe conheci. Sede. A boca seca implorava uma gota d’água, a mesma que você derramava no rosto e escorria pelo corpo, enquanto eu, iludida, esperava que chegasse à minha boca seca. Não chegava. Você me torturava, e mais eu lhe queria sem pudores. Você é essa droga alucinógena que consumo dia e noite, e me faz deitar no colo das moças do calçadão em busca de consolo. Maldita a hora que respeitei as palavras. Devia ter lido os olhos, e tomado seu corpo, me entranhado em você até não caber mais. Não estaria agora padecendo de alucinação.
Saudade é leoa rugindo, fera faminta rodeando a presa...
Cais interditado enferrujando o mar...
saudade é renúncia
é o rasgar do ventre
é o corpo cedido
a felicidade que se esvai...
é a foto amarelada na bancada
o sorriso de lembrança no olhar...
Há que se ter peito pra sustentar uma saudade...
suportar o ir 
                e vir das águas...
entender que as que vem são desencontros das que se vão, das que partem, mas deixam em nós o sal, o que dá sabor
a dor...

À flor da pele
na pele a flor
nasce
cresce
floresce
morre
flor...

Estás ali. Vês?
Desde aquela noite fincou raiz. E cresceu. E floresceu. Flor de mandacaru, aqui do meu sertão, que se fez teu. Vês?
És forte e vigorosa, sertanejo em tempo de seca. Roça a cana, colhe o melaço, e faz do bagaço um banquete, do azedo, doce. Sertão, vês?
Lá ao longe, miragem na beira do açude, a menina brinca feliz, com a flor que teima em florescer. O sertão é oásis. O amor é sertão!
O sertão sou eu, e tu floresces em mim, vês?

Arde
Teus olhos em faíscas a me perpassar 
Minha boca desejando a tua
Arde 
Tua língua na minha, muda 
Tu, vulcão em erupção, nos lábios meus
Arde

...aqueles olhos. 
Faróis acesos encandeando a minha visão. 
olhos de vidro, translúcidos, refletindo o meu desejo...
...aqueles olhos. 
pontos de fogo no céu escuro do sertão. 
o sertão sou eu.

Nódoa. 
Aqui no meu sertão, de caju. 
Que se esvai quando finda o tempo da fruta. É o que dizem.
Esperando, resignadamente, passar o tempo, pra ver o seu cheiro se esvair de mim. 
Nódoa...