domingo, 28 de dezembro de 2008

Um cão!


Os sentimentos vivem em nós o tempo exato de dois sorrisos e algumas mortes; são voluntariosos, implacáveis, vorazes e infinitamente fiéis. Há tempos tenho criado um cão, raça ainda não definida, por conta da inconsistência de seus atos, um dia brincalhão a lamber-me as mãos e abanar a cauda, no outro uma fera a rosnar para mim mostrando-me seus dentes grandes e afiados. Amo-o, mas ele tem crescido muito, tomado proporções que a minha pequena casa não mais suporta, tem comido muito também e só as minhas entranhas não mais sustentam a sua fome. Resolvi então não cuidar mais dele, doá-lo, mandá-lo ir, perdê-lo, em última instância matá-lo. Não pensei ser tão difícil me livrar de um bichinho tão fofo, mas que me dá tanto trabalho. Comecei tentando doá-lo, nada feito, ninguém o queria, - grande demais!! - diziam uns; - come demais! – diziam outros. Levei-o a um lugar desconhecido e deixei-o lá, passaram-se alguns dias... Já alegre imaginando tê-lo perdido de vez joguei sua cama fora; ó sonho o meu, um dia ouvi um latido à porta, para mim já bastante familiar, ele havia achado o caminho de volta. Diante das tentativas frustradas de tirá-lo de minha vida, sentei-me com ele e disse-lhe do meu desejo de não mais vê-lo, fui o mais sincera possível, pedi-lhe que fosse embora e não mais voltasse, ele com seu jeitinho doce, a sorrir-me convenceu-me a deixá-lo mais uns dias, na condição de procurar um outro lugar para habitar. Os dias foram passando e ele continuava ali, expulsei-o, mas todos os dias quando abria a porta de casa dava de cara com ele, olhinhos pidões, rabo a balançar, fiel, implorando-me um lar, alguém para amar... Enfim, cansei de lutar. Deixei que ele entrasse, mas pedi que ficasse num cantinho onde não pudesse vê-lo, mesmo sabendo de sua presença. Sei que ele fica a rondar-me, durante a noite vela o meu sono, sabe todos os meus passos, reina absoluto quando saio de mim. Hoje, decidi não mais alimentá-lo, quem sabe assim ele decida de uma vez por todas partir...

Imemórias....


A paixão tem memória, e eu que ainda nem senti teu cheiro, já guardo em minha face teu sabor. Meus olhos percorrem tua língua, incessante a gastar-te, a languidez do teu corpo, jogado nas nuvens do castelo, borbulha o meu sangue, num misto de fervor e medo, medo de não suportar o teu prazer, medo de render-me ao teu canto, encanto, desencanto...
Clamei e vieste banhada de sol, o azul do mar a escorrer pelas tuas pernas; num ímpeto de loucura acalentei-te em meus braços, entre a tentação de possuir-te e real necessidade de consolar-te. Era verão e o sol queimava, me fazendo esvair em líquidos insosos... Meu coração pátio dos teus devaneios, apartado do meu corpo, já não sabe conduzir-se nos átrios do teu.
Perdida que estou nas tuas dores, revivo os meus desamores, na incansável luta de lançar-te ao fogo, logradouro das minhas ilusões, neste instante de lucidez a minha memória quer apenas esquecer-te...

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A natureza rompante de mim, impede que eu aceite a tua dor. Como calar as lágrimas em minha garganta?? Como segurar o soco no ar?? Vejo-te e menos compreendo, menos compreendo os teus olhos, as tuas súplicas vãs... menos compreendo a tua subserviência, essa sim me amedronta. Olho para o escuro espelho e pouco de ti encontro, sombras, sobras, um velho sorriso amarelo, cataratas nos olhos e nada mais...
Levanta-te e anda!! disse o Senhor. Assim digo-te também, levanta do fosso onde te lançaram, abre a porta da vida e segue-a, ressucita a força e com ela a beleza que lhe é tão peculiar, e vai, mostrar ao rei quem tu és.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Umbigo do mundo

" Dor é o lugar mais fundo, é o umbigo do mundo, é o fundo do mar..." Mesquinhos é isso que somos. Incapazes de nos aperceber da dor alheia, pouco importa a lágrima, o sorriso amargo do outro, a nossa dor é sempre maior. Olhamos o outro como um ser inanimado, capaz de ser queimado a ferro em brasa e não sentir, pois, enquanto tecemos bilros da nossa dor, pensamos ser os únicos a sentir tal coisa. E o outro, o nosso interlocutor?? Terá ele sentimentos?? Dores?? Medos?? Ou será ele apenas simulacro de nossas dores???

Passei a repensar as poucas amizades que possuo, me senti invisível diante de algumas delas; o egoísmo latente impede-as de olhar para o lado, são capazes de me ver chorar e simplesmente continuar a contar-me os seus infortúnios, como se o mundo parasse de girar por causa de seus desamores.

Cansei.

Não mais quero abaixar-me, recuso-me a ser ignorada por quem se diz meu amigo. Aprenderei a olhar para o meu umbigo, e a somente regar as flores do jardim alheio, já que as do meu jardim são tão minhas que podem sobreviver sem mim. Cansei das desculpas, pois amigo para mim é amigo, não existe o meu, ou o seu problema, existe o nosso.

Irritadissíma!!!!!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Avatares

Andei a pensar em brinquedos, na forma como instintivamente usufruimos dos avatares na vida. Assim como as pessoas, também os brinquedos perecem, e a nós cabe escolher o lugar onde os guardaremos. Temos o mal costume de largar o brinquedo velho, ao menor sinal da chegada de um novo, joga-mo-os lá, em qualquer canto da casa, em qualquer lugar do porão. Esquece-mo-nos dos perigos que possivelmente rondam o pobre velho brinquedo, tratamos logo de arranjar um belo e vistoso lugar para o novo, não que ele não mereça um lugar ao sol, mas o sol brilha para todos. O que percebo ocorrer é sempre uma substituição, tanto de brinquedos, quanto de pessoas.O quê realmente nos difere, nós seres humanos racionais, dos brinquedos??? O simples fato destes serem inanimados??? Mas, e nós??? Somos também desprovidos de sentimentos??? Senti-me envergonhada, ao perceber a quantidade de brinquedos, nem tão velhos assim, que simplesmente abandonei ou substitui; ao me dar conta de que quando substituí, o brinquedo novo não tinha a mesma qualidade do velho, e com poucos dias de uso se quebrou... sofri, quando tive que descer ao porão e trazer de volta o velhinho... pois ao reduzi-lo a classe dos imprestáveis, lancei-o a tipo de sorte, e nem sempre quando voltei a procurá-lo o encontrei. Vários são os perigos que um porão esconde, ratos, traças, pó... só agora me dei conta de quantos brinquedos perdi... e do quanto o porão é frio e solitário.... perdi-me...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Me, mim...

Penso-me sã, mesmo quando me atiro no vazio dos teus braços. Volta e meia penso ser inteira, e descubro-me mil, partículas de átomos perdida no espaço. Trago no rosto uma alegria tingida de suor e sangue, e no sorriso a palidez de quem chora no escuro pra não ver. O meu corpo... Ah! O meu corpo tem um quê de menos, tal qual meu coração. Corro demais e me canso antes mesmo de sair. Não penso, é muito árduo. Passo, apenas, deixando rastros de sonhos meus para divertir a plebe inútil e vil. Verdadeiro em mim, somente as dores e os amores que vivi...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Flores, flores...

O solstício de primavera em mim chegou, um tanto quanto amedrontado pelo inverno que insistia em não partir, finalmente a neve não mais impede os botões de desabrocharem, flores ensaiam para surgir em caminhos dantes repletos de pedras e lágrimas... Como tardia é a primavera em mim, vem ela já acompanhada do causticante sol do sertão, que da lama jorrada dos meus olhos fez paredes para proteger a minha cria, tapera de silêncios e dores. No mais, dos teus olhos quero apenas uma mínima distância segura,para que o inverno que ainda habita em ti não venha a intimidar o sol que ensaia morar em mim...

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Teus olhos...


Basta que os teus olhos caiam sobre mim, estou vulnerável e nesse contato sinto o vírus do teu sorriso a inundar-me. Olhos estes, que como o sol à neve, derruba as muralhas que construo nos fins-de-semana, ausente de ti. Às vezes creio-me imune, lanço-me nas teias vis da noite, mas as bocas que lançam flores, à mim parecem farpas; busco em todas elas o teu hálito, mas só encontro podridão e medo.
Basta que os meus olhos caiam sobre ti, para que eu sinta todo o meu sangue pulsar; para que o leão voraz que julgo dormir, desperte, a rosnar, a bradar... para que eu veja ruir todo o esforço de te arrancar de mim...
Basta que os teus olhos pairem sobre mim, para que mais tua eu me sinta.....

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Cavaleira do Dragão


Entre flores de pedra e cheiro de mato vieste, cavalgando um raio escarlate, bradando trovões e espalhando sonhos, ilusões, servidos na xícara do café de ontem. Amazona de mim. Cavaleira de um "Jorge" desprovido do dragão. Águia, que sobrevoa altiva, antes do vôo mortal de nós...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Cinza e pó



O fogo consome o teu cigarro, e eu apenas cinza que descartas ao vento... Cansei. Cansei das xícaras sujas do café de ontem, o mesmo que tantas vezes regou nossas teorias, curto como nossos encontros, quente em minha boca a te desejar. Cansei de justificar o teu pranto, e de não ter parte nos teus sorrisos. Cansei das tuas queixas insolúveis. Cansei de não te ter e ainda assim te dividir. Poupe os meus olhos da cena grotesca do teu prazer... Cansei de sucumbir aos teus olhos e permitir-me tua... Cansei...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Silêncios....


“... esse silêncio todo me atordoa...”

Quantos gritos ainda serão precisos? Onde estás que não me lês?
Jogo ao vento letras entalhadas em puro marfim. Lanço ao mar sinfonias abstratas, arrancadas a fogo de meu ventre. E tu? Indiferença velada, silenciosamente a matar-me. Uma nota que seja do teu dissabor, do teu desamor; uma mentira sincera, ou até mesmo a verdade púrpura. Mas não, não dizes nada. Porque te escondes, quando minha alma se faz transparente diante de teus olhos? Desejo apenas que fales; não te peço canções de amor, cuspa pragas se assim quiseres, mas dispa-se da máscara que te veste...

“... na arquibancada pra a qualquer momento ver emergir o monstro da lagoa...”

Eu me dispo da matéria que me cobre, revelo-me mais-que-imperfeita, rascunho traçado nas telas de Deus, carne, osso, átomos e palavras. Alimento-me dos sonhos, da beleza dos raios e trovões, das cores do furacão, das águas-vivas-virgens-sãs... Insana sou... Trapezista sem rede, que no picadeiro do amor se lanço destemida. Mergulho profundo nos prostíbulos, e lá entre feras sinto-me extremamente eu...

“... e atordoada permaneço atenta...”

Agora tu, venha e retire a face rota que encobre a tua tez. Deixe-me ver as tuas cicatrizes, ouvir as tuas dores, chorar os teus amores... Dê ao meu ser infante a alegria de brincar nos teus olhos...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Inabitável



Por onde andas saudade? Até tu me abandonaste? Deixaste-me a deriva, vagando por ruas de mim? Silêncios comprometem a minha sanidade, ecoam no turbilhão de cores que vestem a minha dor, silêncios esses que sussurram em meus ouvidos as tuas intenções, profanando a minha paz. O silêncio dos teus olhos lança-me na fornalha, purgatório de amores passados, onde chamas de vaidades me queimam as entranhas. Esse mesmo silêncio ergue-me ao Olimpo, terra dos desejos oníricos, onde habita a minha alma errante, andante a buscar-te. Suscitas em mim a dor e a delícia, as flores e os espinhos.


Estou inabitável, abarrotada, roupas penduradas nas sacadas, flores lançadas pelo ar, água escorrendo pelo terreiro, tudo fora do lugar. Um vendaval me atravessou, devastando a plantação, quebrando os quadros, rasgando fotos. O sol saiu, mas em mim o negrume da noite se fez constante. Onde moro em ti? Que lugar habito? Será que sentes esta faca a cortar o peito? Sei apenas que os meus dias seguem ausentes...


E não me venham as moças boas e gentis, sou adepta de meretrizes. Ando com os ladrões e travestis, gosto do escárnio, do sujo, do ilícito. Passem à porta e sigam; o veneno lançado desnuda a face mimética de mim. Sou eu mesma, avessa, traçada em retalhos, remendos de mim te relatam. Quebrem todos os copos, bebo apenas na taça dos “olhos meus”. Olhem pelas frestas, vejam a metástase que assola o meu ser... Nada sei...


... Sei apenas que estou inabitável...

Onde estará o meu amor???



Como esta noite findará
E o sol então rebrilhará
Estou pensando em você...
Onde estará o meu amor ?
Será que vela como eu ?
Será que chama como eu ?
Será que pergunta por mim ?
Onde estará o meu amor ?
Se a voz da noite responder
Onde estou eu, onde está você
Estamos cá dentro de nós
Sós...
Se a voz da noite silenciar
Raio de sol vai me levar
Raio de sol vai lhe trazer
Onde estará o meu amor ?


Ah, quem dera a luz da inspiração viesse sobre mim, um sopro de liberdade desatasse as alparcatas de minha mente insana, conduzindo-me a esculpir palavras para ti... Que as minhas letras fossem tão belas quanto esta que aí está, mas os pensamentos se enlaçam aos meus orgãos já debilitados, tolhendo-me. Quizera saber se da sua boca, mel ou fel escorreriam, ao saber-te amada por mim. Essa inércia, esse tempo indefinido como o entardecer, quando a natureza abre a guarda, anuvia meu ser. Só os teus olhos me confortam.

So...


O sol chegou, bateu a porta e adentrou, onde há pouco era escuridão fez-se luz. Assim sou eu, ao ver-te passar pela estrada, cabelos de ouro, tez altiva, a deslizar, flutuar, ninfa, deusa, mulher apenas. Senhora de mim, em que lugar da tua casa me escondes? Nas prateleiras da tua alma, onde descansa o meu ser cansado? A ausência de pouso me faz vagar... Ausento-me de tudo na tua ausência, mas quando tu vens, sem pedir licença e passa com o trovão que te segue, me choca, me faz querer verter sangue. Notas?? Ou a comodidade de saber-me tua isenta-te de aperceberes de mim??? A ausência rasga a minha alma...

Ah, Capitu, estes olhos, cálice onde me deleito, fogo que consome minhas entranhas... Venha, olhe minhas mãos, veja os calos, montanhas exploradas a buscar-te, dedos um ruinas de tanto cavar as ruas, a te espreitar, te esperar...

...


As pessoas quando nos vêem tristes logo perguntam o que temos, ainda não compreenderam que é exatamente o "não ter" que nos entristece. É doído a ausência de sorrisos, de olhos, de mãos, de afagos; a alegria alheia incomoda, fere, e não sejamos hipócritas, quando da boca amada reluz o ouro do sorrir para um outro que não você, o espiríto da inveja corroe. O ciúme, porco espinho, se lança sorrateiro, quando em minha mente a pintura íntima dos amantes se concretiza. Quizera sair noite afora, bradar aos ventos a minha agonia, colocar-me a espreita de teus passos, mas falta-me a coragem dos guerreiros de tróia, ponho-me a esperar, tal qual Helena, a tecer peças infindas, impregnadas do meu amor por ti.

Horas


Não sei onde colocar esse vazio, essa vontade de vomitar, de vomitar sim, de colocar pra fora a dor, a angústia, a solidão que se entrelaçam às minhas veias. Os meus olhos estão exaustos de te buscar. Vermelho, é só que meus sentidos conseguem discernir na paleta de cores da vida. Fico à beira da estrada, vaga-lumes coloridos pulsam, mas sumiram os vermelhos, onde estão? Escondidos em algum templo japônes?? Ou a vagar entre marés minguantes???

Em mim, mil barcos a naufragar. O vermelho que busco, agora mora em meus olhos, o que um dia fora riacho, hoje fez-se torrente, e o monstro do escuro da minha alma, agora seguro, aparece-me à luz do dia, aterrorizando-me as horas. Esse monstro és tu, saudade, que me torna incapaz do mais leve movimentar de lábios, saudade essa que me conduz a razão, à medida exata da distância de nós.

... sordade...


Sinto-me sem rumo, olho a minha volta e nada me dizem as flores. O tempo virou objeto de tortura, cortante, pontiagudo. Não sinto vontade de ver o mar, ele parece querer engolir-me. Estou cansada… cansada de ser a boa moça, cansada de servir, de proteger. Quero colo, um braço quente em torno ao meu pescoço, uma voz doce a me acalentar… O titan que habita em mim, hoje se fez menino, criança… Procurei a tua face, e nem os teus olhos tive, estes olhos que apesar de me confundirem, me confortam.
Tenho lido Jó, me vejo impura diante dele. Esse desejo insano de te ter, me faz crêr, ter paciência… e que droga é ter paciência. Quanta saudade dos meus quinze anos, já teria pulado o teu muro, atirado pedra na tua janela, dançado contigo e ali mesmo no teu jardim te amado, já saberia a cor do teu prazer… Não tenho mais quinze anos, e uma coisa chamada razão me impede de ser louca. Já fui tua, nos meus sonhos… às vezes me dou o direito de lá permanecer, a realidade é cruel…
Aí vem você, cheiro de mato, jeito “non sense”, sorriso matreiro e estes olhos de lince, sinto meu corpo ferver, um turbilhão de desejos, de sonhos, de medos se misturam, e eu te querendo…
As palavras andam meio desconexas, os meus sentimentos andam tontos, embriagados de ti…

Passando...



Dizem ser os ohos a janela da alma... confusa, muito confusa a tua. Queria poder não enxergar, é esse encontro com os teus olhos que desvia meus sentidos. O tempo, como a prosa do matuto, passa arrastado, a pitar o fumo como quem não tem vontade de chegar, paradoxal, pois as horas correm, voam, ao teu lado é sempre assim. Anseio por estes minutos, preciso-os...

Permita-me tocar os teus olhos, permita-me morar nos teus olhos... fardo pesado... deixe-me apenas pousar, tocar a tua face feito bruma, leve, suave...faça-me seu vassalo, seu cavalo, cavalgue-me, venha, sussurre coisas desconexas e me faça partir... caminho das índias, onde me perco e só me acho em ti.

Só hoje...

Hoje não quero metáforas. Quero as palavras nuas, cruas; quero a pele do meu seio tocando a sua tez; quero as palmas das suas costas a deslizar em minhas mãos; quero o movimento dos barcos; quero a força do furacão; quero a alegria, a beleza, a plenitude...

Hoje quero o teu colo... hoje quero você...

Non...

Hoje desejei te ver, e até corri sem metros com barreiras, no caminho avaliei meu ser e vi-me despreparada pra ver-te em dobro. As madrugadas continuam confusas, e as gotas dos meus olhos cansados insistem em passear pela minha face. Não sei, não quero mais traçar linhas, não quero mais ver teu nome estampado na minha agenda, não quero mais não ver-te... Amo-te e isto me angustia, desejo-te e isto me devora, muito mais que as horas... Longe, perto... Tudo tão confuso... E tu não me dizes, que sim nem que não...

Amor meu


O meu amor me cansa. Cansa, quando
me deixa `a beira da Estrada cheia de desejos; quando me deixa tonta das
bobagens que fala, e que para mim soam como profecias; quando me deixa cansada
de tanto ouvir a mesma canção; quando os teus olhos me fazem promessas
possíveis, mas difíceis de cumprir… O meu amor me encanta. Encanta, quando feito
criança corre a ver as novidades no céu; quando ri das minhas bobagens; quando
se faz séria ao me ouvir, também séria, fazendo-me crer que tudo aquilo tem
sentido; me encantam os teus olhos, que apesar de incógnitos, falam…

Amo o meu amor. Sofro pelo meu amor.
Mas, quando a idéia de afastar-me surge em meus pensamentos desespero-me, a
ausência me dá medo. Assim como Peri contento-me em contemplá-la, a perdê-la de
vez. Ponho freio em meus impulsos, trancafio a minha natureza selvagem e
deixo-me colonizar. O meu amor colonizado te idealiza, rasga as vestes e se põe
em sacrificio, te deseja ardentemente e se auto-flagela por isso. O meu amor
crê nos teus olhos e faz deles porto. Pai, afasta de mim estes olhos, pois eles
adentram minha alma, e dilaceram-me…

Insônia


Amada,


Nunca havia parado para pensar na madrugada, quando as luzes se apagam e os pesadelos aproveitam para transitar, espalhando horror e medo; há dias descobri que da mesma maneira que sonhamos acordados, temos pesadelos. Hoje tive um. Éramos dois, três, quatro, cem, uma sala, um jardim, e aos poucos íamo-nos dispersando, tornamo-nos três, o caminho era florido de pedras, à medida que a sala esvaziava-se tu te preparavas para seguir, mas não ias só. Eu ficava só. Esta cena de dois seres que tanto se diferenciam e entrelaçam a caminhar pelo jardim de pedras, causou em mim certo vazio. Águia e serpente caça e caçador... Quis acordar... dei-me conta da luz do sol, das pessoas ao meu redor, e cravei um sorriso largo e brilho , tão falso quanto o vidrilho, nos olhos. Tive medo de me revelar.


Agora observo a noite adentrar a janela da minha alma, que só consegue se fazer luz perto de ti, são dos raios do teu sorriso que ela se alimenta, do cintilar dos teus olhos que liquefazem os meus, de onde ela tira forças para gritar... um grito surdo, que até rompe as barreiras do som, mas que se sente mudo diante das muralhas da tua alma.


Se soubesses o quanto de mim a ti pertence, do quanto já dançaste comigo em meus devaneios, dos sorrisos, do toque suave das minhas mãos na tua pele, de quantas flores já te enviei, da cama de rosas que para ti preparei... Sinto-te, e ainda que me digam insana, vejo-te em meus braços...

Tigresa


Amada,
Saiba que a menina faceira que habita em ti me encanta, este infinito no olhar, que nunca consigo decifrar, mas que sempre me transpassa, me devora. Tenho saudades de tudo que não vivemos, ainda... Das tuas mãos nas minhas, dos olhares sorrateiros por detrás das frestas, da nossa música (qual será?), de andar contigo pela floresta dos nossos encantos, de viajar enquanto escuto você narrar as tuas viagens para mim, do entrelaçar dos corpos, de teu cheiro, que creio seja de jasmim. Sinto vontade de afagar o véu prata que cobre a tua face, de colocar-te em meu colo e te ninar, de brincar, correr, soltar fogos todos os dias ao te ver chegar... Sinto tanta coisa, e quando em meus sonhos te vejo tão distante, chego a pensar em desistir de te esperar, mas não consigo, é mais forte do que eu, você está em mim, dentro do meu coração você habita o lugar destinado aos Reis e Rainhas, é o que tu és... Amo-te e não consigo explicar, apenas sinto...
Este texto estava escrito há tempos. Num tempo em que o meu amor era oculto, e que o meu olhar fugia dos teus olhos de lince, na tentativa de não se revelar; tempo em que dançávamos ao luar das minhas ilusões; onde ver-te era permitido; onde brincávamos de pique-esconde e eu era feliz. Não que hoje não seja, mas esta falta do teu sorriso, dos teus olhos (que para mim continuam indecifráveis), corroem os meus lábios que em protesto teimam em não se abrir, corrompem os meu olhos de onde as gotas de uma alegria passada caem sem cessar... Olhos teus que me fascinam, exatamente pela inquietude, inconstância de desejos... Olhos que me confundem, quando me exibem filmes presentes e a tua boca repete, voraz, que não, que esse filme ainda não fora lançado, e nem ao menos tens certeza se o será... E aqui fico, assistindo ao teu bailar, raio que corta o ar, flecha que sorrateira, mas veloz, fere; mata devagar, o bicho, a fêmea, o cio... Às vezes penso-me louca, vejo pontes de pura energia saindo de ti, e entrando em mim, dilacerando-me, consumindo-me, evocando em mim sensações, desejos, delírios… Loucura, somos todos loucos, tontos, santos e novamente loucos. É essa saudade de ti que me enlouquece….

Gotas de Sangue


Amada,
Um dia encontrei o teu olhar e senti, naquele momento, que uma semente ainda desconhecida fora lançada em mim. O tempo foi passando e a semente germinou, cresceu, floresceu, nossa amizade aconteceu aos poucos, tranqüila e mansa como as águas de um pequeno rio. Em nome desse carinho, sedei o pequenino vulcão que teimava em querer explodir, e me conformei em contemplar a tua beleza de longe.
Há algum tempo os nossos laços se estreitaram e essa proximidade de você aliada aos acontecimentos recentes, tiraram de mim o controle sobre o vulcão e ele explodiu, jorrando lavas de um fogo intenso por todos os meus poros. Mas tudo é sempre muito dual, e entre me lambuzar com o mel e me resguardar da dor, escolhi cuidar da nossa amizade. Só que as coisas nunca acontecem como esperamos, e um dia você permitiu que uma luz acendesse no fim do túnel, e eu que já tinha me conformado em apenas te contemplar, voltei a te desejar, a sonhar. Sonhos, sonhos, duram tão pouco... Um certo encantador de serpentes, que havia sido deportado da sua vida, conseguiu como por encanto reaparecer e reassumir o posto. Vi nesse momento o chão se abrir e nesse buraco negro que se formara os meus mais lindos sonhos esvaírem-se... Dor é só isso, que me recordo ter sentido... Tive que ir ao Pólo Norte, ou terá sido Sul, não sei, e trazer de lá imensas calotas de gelo para aplacar a fúria do vulcão que jorrava, ávido, intenso, fogo... Só nesse instante me dei conta da imensidão daquilo que eu dizia ser apenas “carinho”, percebi ali que o meu coração havia te escolhido, o que é pior sem antes me consultar...
Agora, estou tendo que reaprender a te contemplar. És muito cara para mim. Tive que novamente escolher entre o mel e a cabaça. Fico outra vez com a sua amizade. Certa vez você me perguntou se eu estaria apaixonada, respondi-lhe que estava no processo, saiba que o processo evoluiu muito e posso te assegurar que nesses dias de noites longas descobri que a paixão já havia comprometido todos os meus órgãos.