segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A moça que me habita

Sim, eu confesso, ela esteve aqui. Ignorei-a de pronto, não estava para salamaleques naquele dia. Abri a porta, entrei e deixei-a lá, à porta, esticando os olhos a bisbilhotar o meu interior. Entre uma louça para lavar na pia, a casa para limpar, o lixo para recolher, da alma? da casa?, olhava pela janela e ela estava lá, fitando-me insistentemente, cão sem dono com olhos de agouro...

Um vacilo, ela entrou. Diante do infortúnio ofereci-lhe um chá. Sentamo-nos, “um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância...”, esse é um outro poema do qual gosto muito, e que até cabe aqui, agora...Sentamo-nos, ela foi categórica: mudei-me para cá. Reclamei, achava demasiado pequeno o lugar para abrigar tamanha bagagem. Ademais não pensava em hospedar ninguém, tampouco ela. Achava-a abusada e espaçosa demais.

Argumentamos por horas a fio, ela obstinada, eu irredutível. Ou não... a alma cansada de guerra deixou-se abater. Os fatos falavam por si, os copos vazios largados pela casa depunham contra mim. Sem saída, arrumei o lado esquerdo da cama e permiti que ela se aquietasse por ali.

Sim, ela esteve aqui, e permanece, não mais ao meu lado, mora em mim.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Às vezes me pergunto onde estava com a cabeça quando topei aquela viagem. Pergunta idiota quando quem tomou a decisão real foi o coração...

Hoje doeu de uma forma diferente, mais aguda, faca afiada cortando a carne devagar, e eu senti vontade de gritar, chorar, espernear, chamar seu some sentada no chão, feito criança birrenta, pra chamar sua atenção, quem sabe assim você voltasse.... não voltou...e eu perdi a fome, o chão, a razão, e chorei, quieta, baixinho, encolhida no colchonete naquela sala fria...Um feto no canto da sala, eu, tentando retornar a segurança do ventre materno.

Hoje doeu, e nem o seu sorriso nas fotos não reveladas conseguiram conter o fluxo desse rio de saudade em mim...transbordei...desejos, planos, vontades, sonhos, tudo escorrendo, rio dos meus anseios... Você em mim é vulcão prestes a entrar em erupção...saudade infinda...história contada nas noites frias sob o edredom do desejo.

E eu, quais histórias ainda conto pra você dormir? Existo? Existi? Ou tudo foi sonho, ilusão desenhada na areia que o mar apagou? Será que você sentiu quando meu coração quase parou de dor? Ouviu quando gritei seu nome enquanto corria na chuva tentando fugir de mim? Sentiu meu corpo tremer de um prazer-dor nas horas de volúpia solitária? Ou tudo foi só ilusão e você nem se lembra da minha boca nos seus seios?


Doeu...