quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Pequeno conto de dor

O silêncio dos nossos olhos prenunciavam o adeus, o mesmo pseudo silencio que o causou. Nos olhamos profundamente naquela manhã, silenciosamente nos amamos, demoradamente nos despedimos, peça a peça, mala a mala; dançamos pela primeira e última vez.
Fechamos a porta e encerramos a conta, o caso, tudo ao mesmo tempo. Ficaram para trás as juras não ditas, benditas, os sorrisos, os beijos, e eu. Difícil acreditar que aquele seria o nosso último abraço. Quando você partiu, pensei em olhar para trás, mas tive medo de virar uma estátua de sal, e segui em frente. Solitariamente deixei que as lágrimas presas desde a primeira hora da manhã rolassem livres pelo meu rosto, e se misturassem ao suor daquele dia triste. Segui o meu caminho, longo caminho de volta, tão longo a ponto de dar o tempo necessário para a concretização do nosso fim.
Desfiz a mala e as esperanças. Chorei calada no meu travesseiro. Esperei a palavra final que não veio. Acordei cedo, vesti minha armadura, saquei minhas armas, palavras, e fui, eu mesma, a porta voz da minha mais profunda tristeza. É o fim, te disse entre lágrimas, e parti. Aqui estou, debulhando o rosário da minha dor, na certeza de que a cada reza, a cada conta, um alento, acalanto, expurgo esse amor.

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